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Milímetro

Largo tudo, se você me prometer
se agarrar em mim.



A gente pode se casar de novo. De brincadeirinha como quando tínhamos seis anos, e brincar de estar brincando aos sessenta. A gente pode se casar aos dezesseis. Aos vinte e seis, de seis em seis, das seis as seis. Na Grécia, em Paris, na Praia, na catedral, na Av. Paulista, na casinha da árvore. E eu quero te procurar na chuva, te procurar no tapete, vestir suas camisetas, e bagunçar seus discos, me irritar com você, e fugir. E fugirmos juntos. Brigar pelo controle, pela parede da sala, pela sobremesa, e perdermos o controle juntos no sofá. E te olhar da janela enquanto você rega o jardim, e te olhar quando você não fizer nada, e beijar seus ombros. E morder suas costas, e te dar a mão, a boca, o peito, os olhos, e não te dar nada. E não pedir nada, e sermos tudo, sermos um, sermos todos, sermos loucos, sermos nós.

Ouvir sobre seu dia, e chorar pelo meu, e te contar sobre aula, e sobre minhas paranoias. Criticar seu filme favorito, e não poder ver o meu, odiar suas caras, amar suas bocas, comprar discos que não serão ouvidos. Sermos ouvidos, e cheiros e tatos. Rir dos seus retratos, e te mostrar os meus, e sentir saudades durante o almoço, mas te deixar tirar um cochilo, ouvir a narração do seu torneio favorito que disputa final no dia seguinte, ouvir triste suas desculpas, e te pedir desculpas tristes. E ficar feliz quando você entende. E odiar suas meias, amar seus meios, sentir frio quando você não me oferecer seu moletom, e sentir calor quando você não pedir para tirá-lo. Ficar te olhando enquanto você pinta um quadro, dizer que é uma arte fazendo outra, que adoro seus olhos, suas sardas, suas coxas.

Odiar os seus vícios, e ficar feliz por suportar os meus. Ficar escrevendo até você voltar, ficar escrevendo sobre você chegar. Escrever nosso aconchego. E te dar mais perfumes do que você usa, e decorar todos eles. Ler Freud durante o piquenique, e ler Lispector, e ler suas cores, e suas curvas. E me arrepender pelos meus surtos, e me alegrar quando você entende. Ouvir sua voz pela manhã, e seu silêncio pela noite, ler suas cartas no seu timbre, e me assustar com seu silêncio. E adorar suas manias, e ajeitar suas manhas, te falar sobre a novela, e sobre um casal 'que era novelo'. E te abraçar quando estiver cansado, e te aguentar quando estiver triste. E te pedir pra ir embora, e ficar te esperando voltar. 

Cantar no seu ouvido, e te abraçar no campo. Combinar os nossos signos, e descombinar nossos pijamas. Contornar as linhas das suas tatuagens com as pontas dos dedos. Guardar seu nome na ponta da língua. E ter ciúme de você, e me preocupar com seus atrasos, e festejar suas vitórias. E te dar todos os motivos pra ir embora, e te ver ficando. E ficar com você, ficar com você no lado mais alto da montanha vendo o pôr-do-sol e te cantar Cazuza. E ouvir as músicas que eu amo, e também as que eu odeio. Entrar no carro e ligar na minha rádio favorita. E apostar todas as fichas, e me perder pra você. 

Desarrumar suas coleções, e suas luvas, ajeitar nossos caminhos, te escrever um texto, te escrever uma música. E te dedicar uma música brega num karaokê barato, e te cantar here comes the sun, até chegar a lua. Ler seus livros favoritos, decorar um poema, te usar de travesseiro, te amar atravessado. E te falar sobre amor, sobre câncer, sobre cura, e te ajeitar na mala pra marcar com tachinhas meu mapa-múndi, e viajar em você. Quero te acampar no meu jardim, numa segunda-feira, e te falar sobre ser, sobre céu, sobre estrelas, e te contar pra elas. Quero te dar um anel, te dar saturno. E esperar por 29 dias, enquanto você não volta, e te amar por vinte e nove anos, por trinta vidas.

E te encontrar pra um café, e não reclamar quando você pedir sorvete. E te mostrar minha lista de sonhos, assim numa quarta feira de sol, e não querer que você me ajude a riscá-la, mas que escreva ainda mais. Quero te amar ao meio dia, e pela tarde, e em marte. Quero escrever nossos nomes numa parede da cidade, que é pra todo mundo ver que eu te amei, pra nossa história esbarrar em outras, quero tropeçar em você, e não me levantar nunca mais. Quero escrever um texto feito esse feito pela gente, feito gente. E organizar sua gaveta, e bagunçar sua cama. E te ouvir bravo por não entender meu medo, e choramingar pra te dizer um não, porque poucas pessoas conseguem te dizer não.

Quero te encontrar quinhentas vezes e me perder em todas elas. Quero sentir medo de amar, e te amar mesmo assim, te contar o incontável, e ficar, mesmo quando ir parecer mais fácil. E ir ficando. Mesmo você esperando que eu vá qualquer dia, mesmo eu sabendo que posso ir, quero escolher ficar, porque a vontade de morar no mundo é grande, mas a de morar em você é ainda maior. Quero te contar que é amor o nó em nossa volta, na minha volta, e rir por você não acreditar, mas é. Era desde o primeiro oi que você me disse. E escrever três futuros diferentes, amando desmedidamente cada milímetro seu. E te amar as pressas. E te amar as prosas. Derramar o chá, reamar. E te odiar todos os dias, te amando sempre um pouco mais.


[Escrito em um pedaço de folha qualquer arrancada de uma agenda velha, após uma conversa sobre os velhos tempos. Encontrei a folha perdida, mas me perdi fora da gaveta]

@tainazona_

2x1

                                                                                                                                                           Para alguém que amei às prosas,
                                                                                                                       que  amei às pressas.


Tenho me cansado muito, você sabe, se tem uma coisa que me parece imutável, é essa minha mania de abrigar na rotina mais dias que de fato possuo. Além dos pequenos post-its ainda pregados no armário, que me dizem o que fazer, e que horas dormir. Sempre existe um espaço entre uma coisa e outra, que não exige bilhete de anotação, ou qualquer despertador no telefone. É nessa hora (e também em meio as outras) que penso em você.

Você sabe, tenho me cansado muito. Mas se tem uma coisa que não muda, é essa minha mania de pensar em você. E em seguida penso, num chão bem grande e bem largo, que é pra você poder espalhar seus livros, e bagunçar o tapete. Colocar na vitrola velha, um cd antigo do Cazuza. E ficarmos ali, os dois. Você ainda gosta de Cazuza, não é? Era ouvindo as canções dele, que a gente costumava sermos nós. Sermos nós, você lembra? Era ao som de Cazuza, que a gente se juntava àquela colcha de retalhos feita à mão. E remendava nosso não-amor feito à pé. Feito à língua. Feito à dedos. Feito às coxas. Feito à braços, e abraços. Aos trancos e barrancos. E em dias de chuvas. Dias de muita chuva. E ficávamos ali, ensopados de nós mesmos. Era Cazuza que a gente ouvia em dias de sol. E quando fazia muito calor, ficávamos ali despindo nossas roupas, e vestindo o sentimento um do outro.

Não sei se você se lembra, talvez o tempo, o cansaço, o ócio, a rotina e o resto, tenha lhe apagado as lembranças, você com uma memória tão boa, possa ter esquecido. E isso sempre foi o diferente entre nós, nunca soube bem das datas, dos dias, das horas, e minha memória ruim, entre um chá e outro só faz lembrar. Era ali naquele espaço dois por dois, que costumávamos sermos um. E, que agora sendo eu só, tendo a ser dois. Tendo a ser nós. Que não atam nem desatam. Era ali, ao som de Cazuza, que você me contava o incontável, e nosso silêncio calava os ruídos lá de fora. Quando acabava a música, a gente mapeava o depois do nosso agora. E de repente o noticiário da tv, não dizia nada, era ali, naquele espaço dois por dois, cabendo um, que o mundo girava.

Penso muito em você, talvez eu pense mais depois da seis, do que pela manhã, talvez eu pense das seis as seis. E no inverno. E embora faça frio, são pensamentos que porque não esqueço aquecem, e é sua veste que me faz companhia. Fico ali, me aninhando ao nosso tapete, que era tão minúsculo para nossas histórias, e que agora abriga uma saudade inteira. E ficamos ali, eu e ela. Sendo mais ela, do que eu. E quem eu era, mesmo?

Talvez você também não saiba responder, por falta de tempo. Pelo cansaço. Pelo cheiro das nossas rotinas fatigantes. Você não saiba responder. Talvez a linha que divide nossos atuais hemisférios, tenha deletado de você, pouco mais do que sua língua nativa. E tenha trazido pra mim, uma saudade do tamanho de nós dois. Você sabe, as coisas sempre pendem para o sul. Mas se por acaso, por descuido de memória, saiba, e mesmo assim não queira responder, eu entendo. E vou te entender e atender sempre que quiser me ligar, mesmo que não saiba com quem se fala. Eu vou te dizer, o que mesmo nunca tendo dito antes, eu te disse sempre.

E que no fim do dia, dessa minha rotina fatigada, é sobre seu peito de poesias cansadas, que quero descansar minhas retinas, e todo o resto.

[ Escrito numa quinta-feira, sem chuva. E sem sol. Sobre o tapete, e sob os ruídos lá de fora. Aconselho a ouvir o som baixinho, ao pé do ouvido e das letras.]

Espero que gostem do texto, e também das novidades que venho preparando que em breve divulgarei aqui na fan page, e se gostar continue em casa, curtindo a page, beijos

(mora-dor)

                                                    "It's been a long cold lonely winter, little darling                                                                                      It feels like years since it's been here...                                                                                                                                                                                                            And I say   It's all right"


Você não acha? Ele me diz suave e castanho, erguendo um de seus ombros despidos, e ajeitando a mão sob o travesseiro. E me encara. Que graça! Seu rosto é cheio de pintinhas, tão pequenas e juntas, quase moradoras uma das outras. Uma trilha de pequenas pintinhas entre um extremo e o outro de sua face. Assim, me encarando desse jeito elas parecem menos frágeis  E mais falantes do que nunca. Quis discordar de você, e dizer que não achava, e que aliás não achava nada além do caminho infinito de sardinhas que vai do seu nariz, até o seu ombro. Começam juntinhas e vão se separando, e faz uma curva certa. E vai te fazendo certo. E vai me deixando torta. Te encaro de volta. E você sorri tímido, do jeito que faz sempre, que espera que eu diga alguma coisa e eu me calo. E sempre me calo conversando contigo. Continua sorrindo. Ajeita as mãos sob o travesseiro e olha para o próprio corpo. Se olhando assim, ele parece mais frágil. Mas me encontra de novo. Me olhando assim, pareço menos frágil.

Preciso recuperar o assunto da conversa, mas me deixa te olhar mais um pouco. Não que nunca tenha te olhado antes. Não que eu não te olhe sempre. É bem diferente agora. Eu tinha ensaiado, desde o último sábado em frente aquele espelho que já foi quebrado em tantos pontos, o que te diria hoje. Eu ia te dizer algo, mas não me lembro. E juro que essa amnésia temporária, não tem nada a ver com o pôster enorme do seu filme favorito naquela  parede azul. Onde eu estava mesmo? Ah sim, ia dizer que precisava te dizer algo que andei ensaiando, mas esqueci. Um gosto amargo na boca, tem gosto de verão passado, e desce com a largueza do fracasso de ter ensaiando um discurso desde o verão, com caras, gestos e bocas, e quantas outras coisas você exigir de mim, e ter caído em pleno outono. E ficar aqui, recebendo a luz do sol, até morrer seca. Esse esquecimento, não tem muito a ver com as suas pintas, é porque tem sempre mais a ver do que eu vejo. Você entende?

Sete e quinze da manhã. Falávamos sobre um assunto qualquer, e antes disso eu já havia esquecido. Esqueci porque meu porteiro lembrou seu nome e te deixou entrar. Eu repeti o gesto. Você sabe que nunca fui tão boa de memória, quando assunto é esquecer. Sempre me esqueço, e acabo lembrando. Eu tenho mil motivos pra detestar você, e te por pra fora. Espalhando bitucas de cigarro pelo chão, e uma pilha de papel em branco, e sábados a noite em casa. E acredite, te por pra fora, é me por também. Eu sei que isso não ia mudar muita coisa. Afinal existem as janelas, que ficam sempre abertas quando você está por perto, desde quando você passou por aquela porta. Te deixar lá fora, assim a mercê desse vento gelado da capital, lembrando a música que você vive cantando quando está distraído. Não existe amor em São Paulo. Enquanto aqui dentro eu morreria de frio, por ver a casa sem você. Existe amor aqui dentro. Eu sei que eu não devia, mas eu disse.

Eu senti vontade de rasgar a camiseta que você largou aqui, enquanto esteve fora. De quebrar seu copo favorito. Aquele que você usa como depósito para apontar os lápis enquanto desenha. Senti vontade de rasgar cada desenho seu. E por fogo no travesseiro que você se apoia, quando vem aqui. E que virou meu apoio, quando você passou por aquela porta. Não me olha assim, agora que eu quase me lembro o que eu ia te dizer, mas esqueci. E esqueço de novo. E esqueço sempre que você vem, mesmo quando é triste e sempre quando é belo. Mesmo quando é  tarde demais, e nunca cedo. Ficou uma música triste tocando pelo rádio, quando você se foi. Você pôde ouvi-lá, quando distante? Não era só sobre a saudade que falava, queria que fosse, mas sempre existe algo mais. Era um vazio bem fundo, quase calado, com o gosto de fracasso, e todo o efeito de uma crise de abstinência. Era a vontade de rasgar todas as suas coisas, e por fogo no que havia ficado. E te encontrar qualquer dia pra dizer que não te preciso. Mas também era a vontade de abraçar forte todos os seus pertences, e te pertencer ainda mais. E te pedir pra ficar, pra ficar na casa, pra ficar em mim. Pra ficar  em todos os dias que se passaram, e em dias como hoje, que apesar de passar rápido, vai começar ainda umas centenas de vezes na minha mente, antes de o dia acabar. E não acaba. O tempo se arrasta quando os dias não são como esses. Era a vontade de dizer que te preciso, te precisando ainda mais.

Você me encara de novo, e sorri calmo e nessa calmaria de dentes brancos eu quase penso que o tempo balançando firme entre os ponteiros, é infinito. Ignorando as malas jogas pelo chão, que não serão desfeitas. O tempo vai, e eu fico. Fico, esperando que você queira ficar. Quem sabe algum dia, por vaidade ou loucura, você desfaça essas malas tortas, ou goste de ficar. E continua ficando, como se o tempo fosse mesmo infinito. Que por descuido ou por vontade, nessa sua ida você encontre um motivo pra ter saudades. E que este seja sua volta.

Não me olha assim de novo, não finge que você não entende. Não quero que isso soe triste, e soa. Se a verdade é que eu não tenho meios, nem a menor vontade de negar as pequenas doses que recebo de você. E toda essa grandeza se consume num vazio ainda maior, depois que passa. E esse vazio não passa nunca. Se isso estiver confuso, me desculpa também, esse discurso calado que estou gritando é menos completo quando você me olha assim. De repente eu vejo seu rosto marcado por pequenas pintas, em pelos e poros. E seus olhos refletindo entre as micro veias vermelhas, que é minha cor favorita, me fazendo ver quase translucidamente eu e o vazio que sempre fica, quando eu não te ver mais.

Agora é tarde, como no fundo é sempre. O relógio foi mais veloz que a nossa lenta percepção pra entender a grandeza do que vivemos. Foi rápido. Mas continua. Sempre existe um parágrafo novo no fim de cada dia, que é a hora em que o travesseiro que você se apoia me serve de apoio. Não foge agora. Você pode levá-lo com você se quiser, pra ouvir a continuação do que se quer existiu de fato. É tarde agora.
Então você levanta e ajeita suas coisas, uma porção de objetos quase nulos, quase brancos, quase certos, que também não ficam. Dez e quarenta. Eu ainda ouço a chave virando na porta, e o chaveiro dos Beatles, fazendo um som insuportável. O silêncio que continuou ecoando pelas paredes quase brancas, e quase cinzas, e quase nulas, vazias e quase certas. A vizinha continua morando ao lado, e escuta here comes the sun toda noite. O rádio continua sendo rádio, e tendo a mesma função desprezível de sempre. E toca toda noite antes de dormir. A parede azul continua no mesmo lugar, sendo acompanhada dos outros cantos também azuis e quase cinzas. O espaço é o mesmo, mas o vazio é bem maior agora.

Desde que você arrumou as suas coisas e me partiu pela quarta vez. Ficou uma bagunça enorme, nesse vazio que mesmo imenso é abarrotado de você. E que a cor cinza das paredes, tem suas caras, tem suas pintas. E seguindo o mesmo curso de suas marcas, nós que começamos longes, e que agora estamos distantes, quero marcar a ideia de que no fim somos moradores um do outro.Você sendo inquilino do qual não se cobra aluguel, e que mesmo devendo tanto, espera-se que fique ainda mais. Você que mesmo indo, fica sempre.

[terminado em uma tarde de terça-feira qualquer, quase silenciosa, exceto pelo som de here comes the sun]

Espero que gostem desse texto, e das novidades quem vem por aí. Beijos.



Sempre o ontem de amanhã

                                                   * Que não exista pressa,
                     pra chegar ao fim






Hoje não tem seus pertences espalhados pelo meu quarto, nem seus pés desritmados bagunçando meu tapete sempre que o pisa. Nem seus passos, aveludados pelas meias escuras, tão firmes, e seguros que sempre se apressavam em minha direção, implorando secretamente por um não-desvio.Hoje não tem você esparramado pelo meu chão, e estrelando o meu teto. Não tem sua camisa velha do Oasis, cheirando cigarro e suor, jogada em qualquer canto. Vou poder me jogar no banco do carro, e observar o verde desbotando pelo caminho de volta pra casa. Vou poder assistir um romance babaca, e sonhar boba, sem me preocupar com o desespero que  seus filmes sangrentos me trazem.

Não tem sua voz calma e cheia de graves, me pedindo pra dizer qualquer coisa e cantando minhas músicas favoritas, só pra eu não dizer pela milésima vez que odeio minha voz. Não tem seus lábios rígidos, e estreitos, e firmes, e suaves que sempre encontravam os meus quando a gente se perdia. Não tem sua música calma, de notas finas se confundindo com meu silêncio bravo. Nem seus olhos serenos me pedindo no meio da rua pra que a gente perdesse a pressa, a calma, e o juízo, porque pensar demais enlouquece. Não tem seus olhos arregalados, em pleno susto, me pedindo pra gente se doar, pra gente se amar, porque viver é amar dobrado. É nos amar. E nosso amor.

Não tem a alegria que você agarrava com unhas e dentes, como se fosse uma corda, e você estivesse à um passo do abismo. E não olha para o que tem abaixo. Não tem sua voz cautelosa e quente na madrugada fria, me dizendo pra parar de chorar porque ia ficar tudo bem. Vai ficar, você dizia.
Não tem seus olhos brilhantes, e suas mãos na frequência onde rigidez e suavidade se separam, me segurando firme e nos juntando. Me dizendo com sua certeza, que a certeza que nós tínhamos é que era incerto. E que errar sempre, errar quinhentas vezes, era a melhor parte do plano que não traçamos. E que a paz era mérito de quem muito errou, era o preço por ter errado,  e que acertar era a passagem pra ela.

 Então você sorria e me dizia pra continuar errando, porque 'sabe-se lá se sua alma ventania, vai se acostumar com os ventos quase nulos da janela pacífica'.  Você estava certo. Eu estou certa agora. E em paz também, e isso me assusta.  Eu sempre precisei de alguém com ventos tão fortes a ponto de bagunçar minha casa, e bagunçar minha vida. Você foi o melhor bagunceiro de todos os tempos, desajustou tudo por onde passou. Desajustou cada centímetro de uma maneira que só você pode voltar pra colocar fora  do lugar. Ficou tudo tão arrumado por aqui.

Existe um espaço triste entre a poltrona e o sofá. Não tem seu disco do Cazuza que me fazia sentir uma paz perturbada, dessas que só quem ama muito sente. Não tem sua mão forte me empurrando sempre pra frente, porque é lá que vivem os sonhos. Seu sorriso todo escancarado, fazendo perfil de bom moço e a bravura de um tigre que sempre tem o que quer. E me fazia perder o fôlego, e a vontade de ir à luta. Eu nunca tive tudo o quis, mas o que eu precisava, esteve ali o tempo todo.

Hoje vou tomar café sozinha, e vou poder chorar baixinho enquanto te sinto distante. Você nunca entendeu esse meu gosto pra café e lágrimas. Um pouco introspectivo demais pra momentos como esses. Apesar de você ter se doado um pouco mais do que todos aqueles que se doaram muito. E ter ido mais longe, do que todos que chegaram em seus limites. Você conduziu bem nossa dança, apesar da falta de ritmo. O melhor passo a gente guarda pra usar sozinho. All right.

Você tem todo o direito de exibir suas notas, e se fazer notar. Exibir suas garras e seus dentes ao mundo inteiro. Se puder grite um pouco  por mim. Você conseguiu, apesar de errar muito, e continuar errando. Você acerta sem saber. Eu é que estou errada quando paro, escondo os dentes, e arranco as garras, só pra bisbilhotar um pouco pra dentro e sentir muito. Meu acerto foi errante.

 Ficam ausente também seus lábios me calando sempre que eu falava sobre o tal nó que dava a alma, e chamava de amor. Porque era. Era amor em todas as vezes, até as que eu não disse. Apesar de te querer me bagunçando novamente, não quero que me veja agora. Preciso me arrumar antes, não é como pôr a casa em ordem, é só desfazer os retalhos que fiz da gente, pra me aquecer quando houvesse frio. E tem doído tanto. Conquistei uma paz inquieta e triste.

Estar em paz assusta. Eu bem que gostaria de continuar vivendo assim. Queria muito. Mas não sei se posso, e se por acaso puder, deixo de querer. Existe paz por tanto canto, que a casa (como eu) ficou vazia.

Alguma coisa deu voz de ordem, e eu comecei a funcionar direito, e você dizia sempre que o avesso é que era meu lado certo. Eu não sei te explicar, e não quero me arrumar mais. Não deve ter cura pra isso, nem toda psicanálise do mundo. Se eu começo a gostar muito de alguém, automaticamente eu paro de tentar gostar de mim.  É por isso que eu fujo, que apronto sempre um plano de fuga rápido e excepcional. Visto minha melhor armadura pra impedir sua entrada de qualquer jeito. É doloroso explicar que sentia saudades mesmo quando você estava à minha frente. Ter que sentir raiva, ciumes, e afogar meu amor-próprio dentro de mim, só pra que você caiba com toda sua imensidão. Eu sentia um amor que era  trinta vezes a minha altura. Eu sinto do tamanho de uma altura que eu não tenho, então começo a enlouquecer. 

Eu não tenho forças e nem estruturas pra te bloquear quando você chega. Nem pra implodir a explosão que sinto quando você toca minha pele, me abraça forte, e beija minha alma. E não tenho forças pra repelir o medo que isso me causa. Talvez um dia, uma segunda-feira qualquer eu consiga te explicar. E te amar sem me agredir.Você que sempre me viu como uma pessoa velha para os dezesseis, ia se assustar se pudesse me ver agora. Tão em ordem, tão pequena, e tão frágil. Sobrou só eu, e o cuidado que devo ter para não me quebrar (mais). Hoje não tem você me dizendo com todas as letras pra eu me amar mais, pra que eu transbordasse o copo de amor diário que você me dava. Hoje não tem você esparramado e bagunçado por todo canto, nem o abrigo do seu peito, pra quando o meu estivesse triste. Como está.

Eu devia pedir desculpas pela minha mania de querer mudar tudo por mim, quando algo muda por si só. Por estar sempre presa lá atrás, enquanto você se fazia presente na minha frente. Devia me perdoar por essa mania louca e exagerada de te abraçar e me engolir. Por ter querido me amassar pra me encher de você, por depois ter querido te expulsar só por  sentir medo de estar me acostumando a estar sempre cheia de você. Por gostar de gostar de você. Me desculpa pela pressa que eu tinha de viver tudo, mesmo quando ainda eram nossos primeiros dias. Por ter me medido em pequenas doses na hora de me entregar, mesmo querendo ter uma overdose. Por essa minha mania de gritar com você, quando eu queria gritar comigo.

Por ter querido tanto, e ter demonstrado pouco. Por ter me abandonado, mesmo sabendo que você me precisava. Por ter querido ficar bonita e cheia, e só ter conseguido solidão e riscos. Por ser sempre tão pesada em gestos, quando queria ser sempre leve. Por ter te alimentado tanto, e me matar de fome. E querer me alimentar só de você. De te querer tanto, de um jeito tão intenso, a ponto de te querer longe. Eu só queria o amor. De um jeito tão intenso, que o expulsa o tempo todo.
No fundo eu queria me desculpar por ser quem sou. Mas continuo sendo. E estou cansada de ouvir me dizerem é assim que se faz, assim que se diz, assim que se sente, assim que se ama. De ouvir que tenho que amar, me amando antes. Amar não é um prato enlatado. Vou me esconder  no espaço infinito que existe entre a poltrona e o sofá. E pedir pra paz ir embora. Vou pensar na saudade, e na vontade de ser de alguém, e ser descaradamente. Despir a armadura, e ficar a mercê de um amor inteiro. Amor próprio, é o que eu sinto quando gosto de ser de alguém. Porque só tem graça ser pra alguém. E alguém ser de volta.

Quero olhar pra dentro e sentir muito, sentir tanto, até que eu não sinta mais. Lembra todas as vezes que você disse que iria ficar tudo bem? Você estava falando sério né? Vai ficar a saudade e a não- bagunça também. Mas uma hora eu me ajeito, me desajeito. Porque eu tive que me encolher toda pra você caber em mim também. Uma hora alguém arruma um ferro bem quente, e me passa pelo avesso. Agora me alimento da saudade e do espaço. E o que sobrou em cada parte de mim, que se fez de você, tem sempre a sua voz me dizendo que vai ter amor, vai ter sorte, vai ter riso. E que o hoje é sempre o ontem de amanhã.

Hoje não tem você, e hoje não tem luar. Não tem nem a sua mania de querer cantar "o teatro dos vampiros" e errar sempre na mesma parte. "E vi capoeira se escondendo pelos cantos", e eu te corrigia "É, fica a poeira se escondendo pelos cantos". E ficou mesmo. Não tem você, mas estou toda coberta da poeira que ficou nos cantos. Em todos os cantos. E vou me sentir assim por muito mais do que por muito tempo.


PS: Se acharem muito longo, desculpa. É difícil encurtar as palavras, quando alguém se expande sempre. Espero que gostem, ainda assim. Beijo.

Após o sinal


*Para um pianista que muito amei,
   ao som de Yellow.




"Deixe sua mensagem após o sinal"

Esse não é meu primeiro ano sem você. Mas é o primeiro depois que te descobri.  E só quando te descobri foi que me descobri também. Aquele foi de fato meu primeiro ano. Perdoa-me o clichê, perdoa-me a falta de ritmo na voz. Antes de você o tempo só passava. Depois de você, o tempo parou.

Perdoa-me a falta de jeito, acho que ficar tanto tempo sem falar contigo me fez perder a pose. Já deu pra sentir a distância. Até as notícias sobre o clima insistem em deixar isso evidente. Aproveitando o assunto, queria te perguntar se está cuidando bem do meu vinil  "Abbey Road", não que isso tenha a ver com o clima, mas sinto saudades dele.

sinto saudades dele.

Lembro de ter respondido isso na última vez que me perguntaram sobre você. Disse e saí andando, vai que sentiam o cheiro da verdade.

 Sinto saudades sua. Atravessei sua velha cidade, e a minha cidade de sempre carregando oitenta doses de saudades no corpo. Depois de embalar o sono, de embalar minha velha dança. Um dia depois de refazer todo o trajeto pela milésima vez. De repente eu era uma saudade inteira carregando pequenas doses de corpo. Eu não sei em que parte do caminho, não me pergunte, você sabe, eu vivo me perdendo.

Sinto sua falta. E sua falta vem fazendo os meus dias. Você tem feito parte de todos os meus dias, e feito todo o meu tempo. Quando nosso clima coincide. Ou quando seus dias são tão diferentes do meu. Agora é quase sempre. (Ainda sei que não se usa conjunção em começo de frase, é melhor juntar com a anterior. Mas lembro de também termos sido subordinadas)

Vi que você me ligou nos últimos dois fins de semana, achei que como sempre você iria retornar a ligação em qualquer horário. Esperei que você me ligasse, e me contasse sobre seu dia, e tantas outras coisas mais. Não aconteceu.  E não te culpo, você precisa ir pra cama cedo. Mas se estivesse acordado, e por um acaso - ou por todo caso- só não quisesse falar comigo, te entendo ainda assim. Assumo que nesse último ano, o que não mudou em mim foi essa minha falta de organização. De criar uma rotina inteira, em pequenos post-its, essa mania de querer viver um mês em uma semana. De querer a vida inteira em um ano. Eu vivo apostando contra o tempo e querendo ganhar tudo. Mas sempre perco pra ele, e saio devendo tanto.

Te devo muito. Te devo algumas eternas noites em claro que você passou, só pra me ouvir falar sobre nada, te devo alguns novecentos abraços apertados, desses desesperados, que você me deu, e eu não retribuí. Te devo um beijo perdido, um sorriso escancarado, e quarenta xícaras de café. Te devo até o cumprimento da promessa de não te dever mais nada. Te devo tanto que já nem me lembro o quanto, sempre que penso minha dívida aumenta. Acho que tenho contigo, uma dívida exatamente do meu tamanho, te devo na mesma proporção que você se doou pra mim. No fundo, eu me devo pra você.

Não quero acertar as contas, como quem risca num caderno a pendência de um boteco qualquer. "Vai mais uma dose pra mim". Não desliga agora, só quero te dizer que não te culpo se por acaso você encontrou um abraço que compensasse os que não dei. Se por acaso você encontrou alguém que nunca te deveu nada, mas sempre te pagou, só por querer.

Não queria me prolongar, esse monólogo longo não explica nem em tese nossa história (infelizmente) curta. Como vê,  larguei o hábito de emendar um parágrafo no outro. Um capítulo no outro. E depois de você, não existi em uma só linha.

Perdoa-me se isso estiver soando com tristeza, não acho triste. E isso é só mais um achismo desses que não tenho certeza. Nossa história sempre foi cheia de vírgulas, reticências, intertextualidade. Te conheci fazendo, o que levou-te a me abandonar. Você me disse que queria que o mundo vivesse sob as teclas do seu piano. Eu só queria dançar sobre o planeta. Me pergunto deus, porque diabos  o ritmo dos nossos relógios não se ajustaram? Acho que você sempre mereceu alguém melhor, alguém que também saiba te tocar.

Andei vendo retratos seus, sei bem que não sorri em fotos, mas acho que vejo algum rastro qualquer de felicidade nos seus olhos. Você se sai bem no frio. Saiba que estou ajeitando minha vida também. É sessenta por cento triste dizer isso, essa coisa de ver  que nós dois caminhamos tão distantes. Parece egocêntrico mas gostava mesmo de quando você perdia tempo olhando pro meu desajuste. Mas saiba que te ver bem, me faz bem também.

Só não queria que como tantos dos nosso encontros, essa mensagem ficasse perdida, ou fosse esquecida por falta da minha organização. Resolvi ensaiar antes, espero que minha voz não trave. Se por acaso ouvir um barulho, me desculpe, é que esqueci o rádio ligado tocando o disco que você gravou, foi uma maneira que achei de te colocar nos meus dias.

Isso resume bem o meu ano, andei tentando te colocar em todos os meus dias, em todas as minhas coisas. Quis te colocar entre os meu livros favoritos, e entre as frases da Lispector, reservei espaço na bagagem pra te colocar no meu sonho de viajar o mundo. Te coloquei entre o meu par de all star cantado pelo Nando Reis. Quis te colocar ao meu ritmo, pra que a dança fosse melhor...(reticências outra vez)

Mas eu vi que sua música é grandiosa demais pra 'ser colocada' em qualquer canto. Sua música, your skin and bones, são grandiosos demais pra não serem sentidos. Pra serem ajustados. Você é a lei do desajuste em si. E é por isso que eu não devo, mas quero ainda andar contigo lado a lado. "Vai mais uma dose pra mim".

Você é o desajuste mais ajeitado que tive por perto. E diferente das outras coisas, não quero me ver te ajeitando na minha vida. Na minha dança. Quero que você continue por aí desconsertando mundos (como o meu) com os seus concertos e saudades suas.




Se você voltar.


Eu sei que você me disse, sim com todas as letras, escutei apesar dos ruídos do telefone, apesar do ruído que sua voz me causa; "estou voltando". E que voltar significava muita coisa, agora não sei mais te dizer pra quem, e fui voltando. Dei uma volta em mim, umas duzentas talvez, até não ter mais espaço pra fazer o retorno. Daí que me deu uma saudade doida, dessas fininhas que parece garoa, você quer abrir a janela pra ver o sol, mas os pingos te impedem. E  fui me acostumando a não querer ver o sol, já nem me importo, prefiro ficar encharcada da garoa que é te lembrar. E fui voltando, e quis parar na chuva.

 Lembrei daquelas dias, não muito passados, que duram até hoje umas duzentas horas, e daí que me perdi, no sol, na chuva, no frio, no calor, Brasil ou Alabama, e já nem me importo, porque esses dias foram teus. Agora que me sinto à beira de um abismo  e repito baixinho pra você não me deixar. E Volto. Do outro lado do telefone você me diz "você está ai?". E quero dizer que estou, que sempre estive, que estarei aqui pra quando você voltar, que na verdade pra mim você nunca foi. E me calo.

Me calo porque em alguma parte da nossa, sua volta, ou da minha volta - não faz diferença já que pra mim sempre estive com você- tive vontade de te pedir pra não vir. Não vir porque agora estou bem, não sei se você diria o mesmo se pudesse me ver, pra você bem sempre foi o que não se procura, apenas acha-se. E eu estou me sentindo bem, um bem  tão merecido, tão procurado, um bem cheio de marcas de lágrima e rímel no travesseiro. Um bem mais esperado que fevereiro. Um bem que me custou algumas noites em claro, e alguns gritos no escuro, mas já não me importo. Você sempre me disse que as coisas não eram fáceis, e que lutar por algo te dá o direito de tê-lo. E eu te pergunto, posso ficar com meu bem?  

Uma parte de mim - a de dentro talvez- quer irremediavelmente que você volte, que você volte e fique o tempo que precisar, e que precise ficar pra sempre. Daí tem uma parte que grita lá no fundo, um grito dolorido abafado que quase nem escuto, talvez não seja legal te ver agora. Te ver significa muito.
Agora que não sei mais o que sinto por você, e por suas voltas, sei que gosto muito. Gosto quando o telefone me acorda, e você me diz do outro lado que se esqueceu do fuso horário e se desculpa. E é um alívio quando ele não toca também. Gosto quando escreve para mim, e gosto quando escrevo sobre você. Gosto de te imaginar perto, e gosto quando aceito que está longe. Sei que do que te diz respeito, gosto muito. Não sei se te amo, amar é confuso pra qualquer idade, mas os ruídos que sua voz me causa me fazem bem. E não é o bem merecido, é um bem que acontece. Desses que não se procura apenas se acha, como eu te achei naquela noite de sexta qualquer. E eu te pergunto, posso ficar com meu bem?

E então penso na sensação que falar com você me causa, não nego é boa, é clara também. E se você voltasse teria vontade de ficar contigo pra sempre, viver duzentas horas por dia, e duzentos dias em uma hora. E onde eu estava mesmo? Ah, sim eu precisava te dizer agora que te ver não seria legal. Isso. E volto.  Não sei como explicar, e se sei não quero. Mas acho que estou gostando de ficar assim, não sei se é gosto ou virou hábito. Viver sob desamparo. Viver só com o meu apoio. Você que me dizia que eu precisava de duas doses de realidade por dia. E quando você está aqui, tudo o que eu vejo é o que você me mostra.

Sabe, tenho gostado de estar assim, quero ver até onde eu chego, mas falar contigo me traz de volta. Não sei se gosto mesmo, ou me acostumo. Se você voltar, vou esquecer disso, e vou querer que fique, você sabe, eu me acostumo rápido. E penso agora num tanto de coisas que só me confundem. "Você ouviu? Vou voltar!" Olha se você voltar me traz de volta,  cansei de me enganar, sempre estive com você.  Ficamos mais um tempo falando sobre qualquer coisa, não quis que você notasse que eu estava contigo.

E então você desliga o telefone, eu esqueço tudo.
E volto a te querer de volta. 

P.s: Mais uma vez peço zilhões de desculpas por ter me ausentado tanto, espero que ainda assim, minhas palavras tenham efeito.

Te vestir. Não te avistar.




Olha, eu tenho vivido dias revirados só porque ás vezes, quando esfria, eu sinto sua falta. E esses dias revirados têm sido puro inverno.  Engraçado como a melancolia vem junto com o vento.  Entrei no clima do revira-volta, revirei o ármario, a agenda, a gaveta fui me agasalhar do frio, e me vesti de você! INFERNO! Até escutei sua voz falando baixinho, que essa seria uma boa rima. Inverno -inferno, que agora tem o mesmo endereço. Até pensei em no seu sorriso bobo quando eu chegasse pra contar que em cada linha desse texto eu parei pra olhar o visor do celular imaginando uma nova mensagem!

Eu te vesti quando fui pro sofá liguei o dvd e não quis ver um drama, escolhi um romance desses mal produzidos, mal legendados e com fim sempre tão igual. Então o seu eu que agora estava em mim, me dizia que nosso fim seria diferente, que nosso filme era gravado no olhar um do outro, sem flash, sem platéia, sem rodeios!

 Dormi no sofá. Acordei com sua voz que me chavamava só em mente, me pedindo baixinho pra não me despir de você, porque no frio a casa é grande demais pra andar com a alma nua! Qualquer acordo bobo que a melancolia fizer com o vento, pronto. Resfriado ataca a alma. Congela o pensamento. E deixa a gente por dias deitada na cama chorando com a trilha da novela. E por isso eu me vesti ainda mais de você.

Dormi bem com o abraço que você dava na minha alma, que era feito pelos meus próprios braços. E sonhei outra vez que tua alma ocupava espaço na minha casa, e minha casa era o que batia em seu peito. Acordei outra vez com sua voz me chamando baixinho, num timbre que só você alcança, e então fui tratar de ser o eu que só você tem.

 Preparei o café forte, montei mesa pra dois e você me acompanhou. Dois copos na mesa, dois lugares, dois pratos, dois croassaint , e um corpo. Bebi duas doses de café, bebi no teu copo, te vesti no meu corpo, e me alegrei em mim. Olhei pela vidraça e o inverno de ontem tinha ido embora e achei que era hora de você ir também. E você disse baixinho que podia ficar mais, que queria ficar mais, e que a gente valia mais. E te vesti outra vez.

Te vesti quando fui até a varanda só pra ver a gente sentados na escada, ouvindo a musica que era mais minha do que sua, mas a gente dizia que era nossa! Te vesti quando tocou o telefone eu atendi e disse que não estava, porque quando estou contigo não estou pra ninguém, não estou pra nada.

 E tua veste me fez companhia por tantos dias, que estavam só por fazer. E a casa foi mais quente, a mesa mais bem posta, os filmes mais inusitados, a varanda mais querida, e eu tão mais amada! E você passou a ser minha roupa favorita, te vestia pra ir à feira, te vestia pra ir a festa, te vestia pra dormir.

E te vesti tantas outras vezes, te vesti sempre, te vesti de novo. E dizia que era sempre a ultima vez, porque morrer de frio é doloroso, e doloroso foi quando eu vi que de tanto te vestir estava por morrer de amor! E morri outra vez!

Morri de amores, morri de dores, morri só por morrer. Não, não estou dizendo que te vestir tenha sido ruim, me vestir de você era maravilhoso. Ruim era quando eu lembrava que só te vestia e não te avistava em canto nenhum. E foi então que fechei a vidraça, porque o inverno chegava outra vez.


P.S: Desculpa a demora em postar novamente! Espero que leiam, beijos.

Café (re)expresso.

Já que não vais acompanhar minha vida,,
ao menos fique para um café.



Eu sei que enovelada no descompasso da nossa conversa, havia um nó a mais. É que nossa mão tende a se esbarrar quando faz frio. E sem querer no meio da conversa a gente tem essa mania de perder o olhar no olhar do outro. E se perde. Eu sei que eu nunca disse, você também não disse, mas sempre soube. Te queria mais perto. E mais perto era onde você queria estar, ainda sem dizer.
Por descuido seu braço faz contorno ao meu ombro, que se fecha pro coração não ficar tão à amostra. E agente então desenrola o novelo, e volta ao assunto norte sul, e cá estamos rindo da piada outra vez. O garçom trás o café em seguida você diz "já foi mais doce,não?". Ai eu quase grito sete vezes que fora, e uma oitava pra ver se por ventura volta a ser. Era doce quando éramos nós, e não novelo. Que saudades da doçura que tinha o café que a gente tomava rindo antes de você fechar a mala, sem me pôr dentro e ir ao norte.

Nossa mesa ao lado da janela faz vento demais, agora que está de volta, você sorri torto e ajeita meu cabelo. Pra compensar a ultima vez em que sua ausência me bagunçou. E você pergunta se depois de tanto tempo a mesa ainda era sua. Ela sempre fora, assim como eu também sempre fui antes mesmo que soubesse que um dia o lugar estaria vago. E vento da janela mais forte. Era sua antes mesmo de saber que algum dia o encontraria. Era sua a mesa, era sua eu também. 

Você esquece o olhar em cima do meu outra vez. E se encontra. Olho o reflexo e me acho também. Mas a gente combinou do nosso jeito telepático que dessa vez não seria amor. Nem dessa e nem de outras. A gente combinou e eu assino nossa sina. Melhor. Já to até me acostumando com o gosto do café amargo, ás vezes até trago uma fivela na bolsa pra não ver meu cabelo bagunçar. Eu estou ótima. Bem como nunca estive. E quase te provo.

Não faz isso, não faz essa coisa de deixar a música ambiente ficar pequena toda vez que você diz algo. Não faz eu ouvir os nomes, no cabeçalho da parede, ao som da sua voz. Sem essa coisa de deixar as histórias pequenas, porque você brilha mais. É tão injusto. Não faz também essa coisa de deixar as fileiras de palavras infinitas, pequenas, diante do norte e sul que só existe quando estamos juntos. É injusto ofuscar o mundo só porque eu me vejo no seus olhos. E brilho. 

Não me faz achar a vida mais bonita quando estou contigo, porque quando não estou o que fica parece tragédia. Não me deixa virar a noite outra vez abraçando o travesseiro forte pra lembrar do seu abraço. Não me deixa ouvir uma música e lembrar de como você a tocaria. Não quero outras noites jogadas no sofá de tanto rir porque você dançando é patético. Não é amor a gente jurou que não. Amor é outra coisa. Essa tendencia que temos a ligar um para o outro é impulso. Hábito. 

A gente combinou e vai seguir assim. A bagagem era pequena pra caber o meu coração que fica grande com você. E você levou só ele. Não tem importância. Quase não sinto falta. Nada faz falta quando você tá perto de novo. Portanto pare. Não diminua o mundo com sua grandeza. Parece piada a gente se sentir assim com o nosso não- amor tão puro. As outras sete bilhões de pessoas no mundo não são tão doces quanto nossas xícaras lado a lado.  

Ai meu deus. Só não me deixe ficar acordada pela madrugada conferindo o celular pra ver se é você quem me liga. Impede essa vontade que eu sinto de dizer pra todos que eles não serão como você. E que no fundo eles servem pra me mostrar o quanto estar com você é exato. E que eu abriria mão do progresso, só porque olhar pra trás é esbarrar em você.

O nosso não-amor é tão maior do que seria se fosse só amor. Eu queria te amar mais, te amando menos, me confundo. Por esse nosso não-amor eu me mantive viva, só por morrer de amores por você. Pra te ter de novo eu tive que não te ter mais. Mas tudo bem. Está como combinamos. Enquanto isso, deixa que eu visto essa pele de gente bem resolvida e continuo a rir do nosso não-amor pra poder rir contigo outra vez. Pode deixar, que vou fingindo que meu café é doce, e finjo que estou fingindo quando te peço pra que não me deixes.






Eu hoje acordei..




"Pudesse abrir a cabeça, tirar tudo para fora, arrumar direitinho 
como quem arruma uma gaveta. " (C.F.A)



Eu hoje acordei com o cabelo desgrenhado como todos os dias, o lençol escapando da cama, o pijama
largo e frio, e o travesseiro também tão afastado de mim. Eu hoje acordei vendo o quarto bagunçado como todos os dias, a gaveta fora de ordem e os livros espalhados pelo chão. Olhei pro lado não vi nada além da bagunça, olhei pra mim, me vi bagunçada. Escrevi tantas frases num papel que por ventura sentido não fizeram. Tentei ligar as palavras que não me ligam, tentei escrever o que não me descreveu. Agora eu sou assim, durmo fantasiada, e acordo despida de mim. To colecionando textos cheios de vazio, e o vazio que ficou no retrato também.

Olhei no espelho e vi as mesmas marcas sob os olhos, olhei ao chão e senti minha lombar explodir em dor. Minha janela ainda precisa de concerto, não encontro minhas chaves, e as paredes precisam de cor. Voltei a olhar pra mim e a bagunça aumentou, a mente bagunçada, o coração bagunçado, os nervos atrofiados, e a vida foragida. Três copos no criado-mudo e min'alma de sede está preenchida. No espelho há marcas de batom borrado e vermelho, e do outro lado uma mente deturpada de vagos conselhos. É pensamento que foge quando deveria ficar, é pensamento que fica quando deveria fugir.

Adiante vejo a vitrola, esquecida num canto porque há muito seu som não funciona e o disco toca baixo, mal consegue alcançar o quarto volume sem travar a música. Do outro lado um coração - também esquecido num canto qualquer- porque há muito não bate bem, se cansa rápido, também não alcança muito sem travar. E trava sempre. Talvez essa coisa de batimento descompassado enjoou de tanto ser rotina. Agora descompasso virou nó.

Tem tanta coisa acumulada na casa e no corpo, no cômodo e na mente, nas caixas e coração. Papéis sem importância, laços esquecidos, amizades vencidas, contas com o destino, bilhetes de cinema, histórias mal contadas, verdades que não aconteceram, tanto evento que já passou,e  gente que seguiu o mesmo rumo, cartas não entregue, palavras não ditas... Acumulei coisa demais na casa, na mente, no coração e nas caixas.  Preciso me livrar. Não tenho espaço pra mais nada, não tenho mais espaço para mim. Tá tudo uma bagunça, sem mais e sem fim.

Eu queria falar, que apesar de tudo parecer um grande nada, ainda me lembro do que deixei. Logo arranjo um jeito de arranjar as coisas e digo que me arranjei.

[...] Eu hoje acordei tão só, tão vazia, tão fria, sendo só bagunça e cansaço, olhei para mim, querendo olhar somente para os lados. Eu hoje acordei, e vi o (des)caso [...] Eu só queria falar, que eu hoje acordei.
 

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