Sempre o ontem de amanhã

                                                   * Que não exista pressa,
                     pra chegar ao fim






Hoje não tem seus pertences espalhados pelo meu quarto, nem seus pés desritmados bagunçando meu tapete sempre que o pisa. Nem seus passos, aveludados pelas meias escuras, tão firmes, e seguros que sempre se apressavam em minha direção, implorando secretamente por um não-desvio.Hoje não tem você esparramado pelo meu chão, e estrelando o meu teto. Não tem sua camisa velha do Oasis, cheirando cigarro e suor, jogada em qualquer canto. Vou poder me jogar no banco do carro, e observar o verde desbotando pelo caminho de volta pra casa. Vou poder assistir um romance babaca, e sonhar boba, sem me preocupar com o desespero que  seus filmes sangrentos me trazem.

Não tem sua voz calma e cheia de graves, me pedindo pra dizer qualquer coisa e cantando minhas músicas favoritas, só pra eu não dizer pela milésima vez que odeio minha voz. Não tem seus lábios rígidos, e estreitos, e firmes, e suaves que sempre encontravam os meus quando a gente se perdia. Não tem sua música calma, de notas finas se confundindo com meu silêncio bravo. Nem seus olhos serenos me pedindo no meio da rua pra que a gente perdesse a pressa, a calma, e o juízo, porque pensar demais enlouquece. Não tem seus olhos arregalados, em pleno susto, me pedindo pra gente se doar, pra gente se amar, porque viver é amar dobrado. É nos amar. E nosso amor.

Não tem a alegria que você agarrava com unhas e dentes, como se fosse uma corda, e você estivesse à um passo do abismo. E não olha para o que tem abaixo. Não tem sua voz cautelosa e quente na madrugada fria, me dizendo pra parar de chorar porque ia ficar tudo bem. Vai ficar, você dizia.
Não tem seus olhos brilhantes, e suas mãos na frequência onde rigidez e suavidade se separam, me segurando firme e nos juntando. Me dizendo com sua certeza, que a certeza que nós tínhamos é que era incerto. E que errar sempre, errar quinhentas vezes, era a melhor parte do plano que não traçamos. E que a paz era mérito de quem muito errou, era o preço por ter errado,  e que acertar era a passagem pra ela.

 Então você sorria e me dizia pra continuar errando, porque 'sabe-se lá se sua alma ventania, vai se acostumar com os ventos quase nulos da janela pacífica'.  Você estava certo. Eu estou certa agora. E em paz também, e isso me assusta.  Eu sempre precisei de alguém com ventos tão fortes a ponto de bagunçar minha casa, e bagunçar minha vida. Você foi o melhor bagunceiro de todos os tempos, desajustou tudo por onde passou. Desajustou cada centímetro de uma maneira que só você pode voltar pra colocar fora  do lugar. Ficou tudo tão arrumado por aqui.

Existe um espaço triste entre a poltrona e o sofá. Não tem seu disco do Cazuza que me fazia sentir uma paz perturbada, dessas que só quem ama muito sente. Não tem sua mão forte me empurrando sempre pra frente, porque é lá que vivem os sonhos. Seu sorriso todo escancarado, fazendo perfil de bom moço e a bravura de um tigre que sempre tem o que quer. E me fazia perder o fôlego, e a vontade de ir à luta. Eu nunca tive tudo o quis, mas o que eu precisava, esteve ali o tempo todo.

Hoje vou tomar café sozinha, e vou poder chorar baixinho enquanto te sinto distante. Você nunca entendeu esse meu gosto pra café e lágrimas. Um pouco introspectivo demais pra momentos como esses. Apesar de você ter se doado um pouco mais do que todos aqueles que se doaram muito. E ter ido mais longe, do que todos que chegaram em seus limites. Você conduziu bem nossa dança, apesar da falta de ritmo. O melhor passo a gente guarda pra usar sozinho. All right.

Você tem todo o direito de exibir suas notas, e se fazer notar. Exibir suas garras e seus dentes ao mundo inteiro. Se puder grite um pouco  por mim. Você conseguiu, apesar de errar muito, e continuar errando. Você acerta sem saber. Eu é que estou errada quando paro, escondo os dentes, e arranco as garras, só pra bisbilhotar um pouco pra dentro e sentir muito. Meu acerto foi errante.

 Ficam ausente também seus lábios me calando sempre que eu falava sobre o tal nó que dava a alma, e chamava de amor. Porque era. Era amor em todas as vezes, até as que eu não disse. Apesar de te querer me bagunçando novamente, não quero que me veja agora. Preciso me arrumar antes, não é como pôr a casa em ordem, é só desfazer os retalhos que fiz da gente, pra me aquecer quando houvesse frio. E tem doído tanto. Conquistei uma paz inquieta e triste.

Estar em paz assusta. Eu bem que gostaria de continuar vivendo assim. Queria muito. Mas não sei se posso, e se por acaso puder, deixo de querer. Existe paz por tanto canto, que a casa (como eu) ficou vazia.

Alguma coisa deu voz de ordem, e eu comecei a funcionar direito, e você dizia sempre que o avesso é que era meu lado certo. Eu não sei te explicar, e não quero me arrumar mais. Não deve ter cura pra isso, nem toda psicanálise do mundo. Se eu começo a gostar muito de alguém, automaticamente eu paro de tentar gostar de mim.  É por isso que eu fujo, que apronto sempre um plano de fuga rápido e excepcional. Visto minha melhor armadura pra impedir sua entrada de qualquer jeito. É doloroso explicar que sentia saudades mesmo quando você estava à minha frente. Ter que sentir raiva, ciumes, e afogar meu amor-próprio dentro de mim, só pra que você caiba com toda sua imensidão. Eu sentia um amor que era  trinta vezes a minha altura. Eu sinto do tamanho de uma altura que eu não tenho, então começo a enlouquecer. 

Eu não tenho forças e nem estruturas pra te bloquear quando você chega. Nem pra implodir a explosão que sinto quando você toca minha pele, me abraça forte, e beija minha alma. E não tenho forças pra repelir o medo que isso me causa. Talvez um dia, uma segunda-feira qualquer eu consiga te explicar. E te amar sem me agredir.Você que sempre me viu como uma pessoa velha para os dezesseis, ia se assustar se pudesse me ver agora. Tão em ordem, tão pequena, e tão frágil. Sobrou só eu, e o cuidado que devo ter para não me quebrar (mais). Hoje não tem você me dizendo com todas as letras pra eu me amar mais, pra que eu transbordasse o copo de amor diário que você me dava. Hoje não tem você esparramado e bagunçado por todo canto, nem o abrigo do seu peito, pra quando o meu estivesse triste. Como está.

Eu devia pedir desculpas pela minha mania de querer mudar tudo por mim, quando algo muda por si só. Por estar sempre presa lá atrás, enquanto você se fazia presente na minha frente. Devia me perdoar por essa mania louca e exagerada de te abraçar e me engolir. Por ter querido me amassar pra me encher de você, por depois ter querido te expulsar só por  sentir medo de estar me acostumando a estar sempre cheia de você. Por gostar de gostar de você. Me desculpa pela pressa que eu tinha de viver tudo, mesmo quando ainda eram nossos primeiros dias. Por ter me medido em pequenas doses na hora de me entregar, mesmo querendo ter uma overdose. Por essa minha mania de gritar com você, quando eu queria gritar comigo.

Por ter querido tanto, e ter demonstrado pouco. Por ter me abandonado, mesmo sabendo que você me precisava. Por ter querido ficar bonita e cheia, e só ter conseguido solidão e riscos. Por ser sempre tão pesada em gestos, quando queria ser sempre leve. Por ter te alimentado tanto, e me matar de fome. E querer me alimentar só de você. De te querer tanto, de um jeito tão intenso, a ponto de te querer longe. Eu só queria o amor. De um jeito tão intenso, que o expulsa o tempo todo.
No fundo eu queria me desculpar por ser quem sou. Mas continuo sendo. E estou cansada de ouvir me dizerem é assim que se faz, assim que se diz, assim que se sente, assim que se ama. De ouvir que tenho que amar, me amando antes. Amar não é um prato enlatado. Vou me esconder  no espaço infinito que existe entre a poltrona e o sofá. E pedir pra paz ir embora. Vou pensar na saudade, e na vontade de ser de alguém, e ser descaradamente. Despir a armadura, e ficar a mercê de um amor inteiro. Amor próprio, é o que eu sinto quando gosto de ser de alguém. Porque só tem graça ser pra alguém. E alguém ser de volta.

Quero olhar pra dentro e sentir muito, sentir tanto, até que eu não sinta mais. Lembra todas as vezes que você disse que iria ficar tudo bem? Você estava falando sério né? Vai ficar a saudade e a não- bagunça também. Mas uma hora eu me ajeito, me desajeito. Porque eu tive que me encolher toda pra você caber em mim também. Uma hora alguém arruma um ferro bem quente, e me passa pelo avesso. Agora me alimento da saudade e do espaço. E o que sobrou em cada parte de mim, que se fez de você, tem sempre a sua voz me dizendo que vai ter amor, vai ter sorte, vai ter riso. E que o hoje é sempre o ontem de amanhã.

Hoje não tem você, e hoje não tem luar. Não tem nem a sua mania de querer cantar "o teatro dos vampiros" e errar sempre na mesma parte. "E vi capoeira se escondendo pelos cantos", e eu te corrigia "É, fica a poeira se escondendo pelos cantos". E ficou mesmo. Não tem você, mas estou toda coberta da poeira que ficou nos cantos. Em todos os cantos. E vou me sentir assim por muito mais do que por muito tempo.


PS: Se acharem muito longo, desculpa. É difícil encurtar as palavras, quando alguém se expande sempre. Espero que gostem, ainda assim. Beijo.

28 Comentários:

  1. Já disse o quanto esses textos de saudades, de lembranças parecem que são feitos pra mim. Porque eu vivo disso.

    Lindo, e doce.
    Bjws, até breve. "_"

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    1. Desses milhares de textos sobre uma pessoa só!
      Já disse o quanto gosto de receber suas visitas?
      Beeeijos e obrigada (:

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  2. Oiee flor, li seu texto... kkkkk
    Muito lindo e verdadeiro, uma coisa que como eu escrevo acredito que quem escreva seja igual, você coloca para fora o que esta cheio dentro de você, esse rapaz com toda certeza foi alguém muito especial. Bem não quero me intrometer... mas, vocês tem algum contato? ou melhor vc ja falou para ele realmente o que sente?
    Achei essa frase no texto, hoje aprendi por tudo o que vivi a demonstrar."Por ter querido tanto, e ter demonstrado pouco."
    Deus abençoe
    asoonhadora.blogspot.com/

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  3. Menina, seus textos me cativam de um jeito e ele é de um modo que todos se identificam. sério, toda vez que tiver post novo e eu não tiver comentado aqui, comenta lá no blog que o seu tem post. Quero ficar atualizada com seus textos bombásticos.
    Obg pelo carinho lá no blog

    Bj, Luh

    s2dreamsofana.blogspot.com

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  4. O paradoxo de um amor desesperado é ser ainda mais desesperante quando acaba.
    GK

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  5. Que bom que gostou do que leu e se identificou, Tainá!
    Volte sempre que quiser. E o seu blog tem um forte cheiro romance. Adorei o gif que liberta!

    Bjos

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  6. eu fico fliz quando encontro blogs que assim como eu, postam seus textos ! :)
    Eu estou seguindo aqui, Quer conhecer o meu ?
    http://bhulago.blogspot.com.br/

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  7. Olá Tainá, amei seu txt.

    Beijos, e um ótimo dia.

    www.noivadoedgar.blogspot.com

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  8. Quando um amor vai embora fica a saudade espalhada pelos cantos da casa, fazendo um amontoado de lembranças pesadas. É difícil aceitar que tudo mudou, que agora as coisas precisam serem apreciadas sozinha sem a companhia da pessoa amada.

    Amei o texto. Extenso, mas cheio de delicadeza.

    Beijos.

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  9. E de tudo isso apenas sobra a saudade, a maldita saudade.
    Adorei o texto, comecei a lê com uma certa "preguiça" mas o texto me levou a pensar, e em um piscar de olhos terminei.
    xoxo
    http://llegaraquince.blogspot.com/

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  10. Gostei muito! Seu texto me fez lembrar uma música da Adriana Calcanhoto, especialmente quando ela fala que ainda tem o cheiro da pessoa amada pela casa. As memórias sempre ficam.

    Beijos. :3

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  11. Por momentos parece que vivo nestes textos, na saudade e no amor, na falta, no sonhar. São intensas as palavras que aqui encontro e depois toda a melodia a acompanhar só torna tudo bem mais sentido, bem mais real.
    Foi lindo ler este post.

    Um beijo :)*

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  12. Olá!!
    Seguindo como ๑۩۩๑ Gabbi๑۩۩๑ e Curtindo no Facebook,
    http://euqueronaminhaestante.blogspot.com.br/
    Muito legal seu blog achei lindo!! Segui e Curti o meu Blog também.
    Beijos!!!

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  13. Me identifico com tanta coisa! Sou velha para meus dezessete, gosto de café com lágrimas -equilibra o sabor, tenho me cuidado para não me quebrar (mais) e sempre me desculpo por ser quem sou (mas continuo sendo).
    Faz tempo que não escrevo, mas quando te leio, me dá vontade de voltar.

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  14. que coisa mais linda! Sabe, penso assim tbm, segundo minha mãe, romantico (e cafajeste) incurável, viver por alguém, ter alguém em quem pensar antes de fechar os olhos, e pra sentir saudade logo após se despedir, é a melhor sensação do mundo.

    Vivi quase a mesma coisa quanto a frase, comigo, acontecia com o Alceu, "eu já estou nos teus sinais" e com o Belchior "você que é mal passada". Ela teimava em cantar errado, parar fazer uma graça mesmo, hoje eu sei.

    beeijo, e muito obrigado pela visita, está convidada a voltar sempre que quiser, hehe!

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  15. nossa, adorei seu texto e a música escolhida.
    é incrível como podemos amar tanto alguém e esquecermos de nós, não é? e quando o amor vai embora e tudo ainda fica?

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  16. Que delicia de música e de texto!
    Seu blog é maravilhoso, seus textos me descrevem tanto realmente não sei explicar. Parabéns, adoro aqui! <3
    Fios e Fias, estou esperando vocês! Xero
    http://pireidevez.com

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  17. Desculpa por ficar longo? Mais uma vez você conseguiu me deixar extasiada!
    Eu sou apaixonada por textos longos quando intensos assim como o seu. A "trilha sonora" escolhida, o deixou bem mais especial... Perfeito!
    Adoro seus escritos e me encontrei aqui! Sempre que puder, estarei de volta!
    Beijos


    http://oiflordeliz.blogspot.com.br

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  18. Compartilho do mesmo sentimento de saudade! Tem uma matéria incrível sobre mitologia grega lá no blog, vale a pena conferir ^^

    Abraços,
    http://therevolucaonerd.blogspot.com.br/2013/01/mitologia-grega-tudo-surge-do-caos.html

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  19. Meu Deus, Tainá! Que texto maravilhoso! Quanto talento! Meio nostálgico, mas o que nessa nossa vida não acaba virando nostalgia, não é mesmo?
    Queria lhe agradecer pela visita no meu blog. Realmente, um belo acaso. Quem sabe não vejo um dos seus textos numa revista daqui a alguns anos? Se você continuar escrevendo textos inspiradores como esse, não duvido que isso seja plenamente possível.
    Ah! Estou apaixonada pelo nome do seu blog. Já ouviu falar do livro "Maçãs envenenadas"? Procure informações sobre ele quando tiver um tempinho livre. Acho que você iria gostar ;)
    Bjos.

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  20. Gostei. Gostei daqui. Gostei do texto, de tudo, rs (:

    Beijo, beijo!

    Goiabasays

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  21. Caraca você escreve tão bem!
    amei, amei , amei ;D

    cojuliana.blogspot.com

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  22. eita em! beeelo texto.

    http://juhhrabelo.blogspot.com.br/

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  23. Olá Tainá,acabei de ler um conto seu no Doce de Abril e ainda encontro esse derramar esplêndido de sentimentos intensos e emocionantes?! Eu realmente me apaixonei por suas palavras,cada sílaba me pegou afundo no coração,lindo,muito lindo,inefável!
    "Estar em paz assusta. Eu bem que gostaria de continuar vivendo assim. Queria muito. Mas não sei se posso, e se por acaso puder, deixo de querer. Existe paz por tanto canto, que a casa (como eu) ficou vazia."

    Beijo grande.
    Camila Vieira

    http://cami-lices.blogspot.com.br/

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  24. Voltando aqui para agradecer a sua visita no meu blog ^^

    Abraços,
    http://therevolucaonerd.blogspot.com.br/

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  25. Oi querida!
    Passei rapidinho para avisar que te indiquei em uma tag no meu blog.
    Segue o link: http://oiflordeliz.blogspot.com.br/2013/01/1-selinho-de-2013.html#comment-form
    Beijos

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  26. Acho que foi o texto mais lindo que eu já li. =') Vou ler ele novamente.

    beeijos

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  27. oie!
    Tô participando do meme "Campanha de incentivo à Leitura" e indiquei sou blog para participar também!

    Um beijo!

    http://clubemeninasleitoras.blogspot.com.br/2013/01/campanha-de-incentivo-leitura.html

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a frequencia da diversidade, ou apenas os complementos para os meus insanos pensamentos,ou o conforto de saber que me escutam.

 

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